O RETRATO DA DITADURA PORTUGUESA
Edgar Rodrigues
Edição Mundo Livre (1962) , Rio de Janeiro, 216pgs.
A
RAZÃO DÊSTE LIVRO
Com a publicação de "O RETRATO DA DITADURA PORTUGUÊSA”,
tem o autor a intensão de divulgar a vasta documentação que colecionara durante
a sua longa e penosa permanência em Portugal. Por outro lado, protestar contra
essa negra e sinistra figura que outrora dirigia o “CORREIO DE COIMBRA" e
sob o pseudônimo de Alves da Silva usava e abusava da liberdade de pensamento
escrito e falado, e que agora tão covardemente arrebata aos seus concidadãos.
Alguém – que ao tempo me pareceu muito acertado –
afirmara que os ditadores amam demasiadamente a liberdade, por isso a querem só
para eles, em vez de a dividirem com os seus semelhantes. Todavia isso não é
exato! O ditador português não tem liberdade e também não ama a liberdade, pois
se tornou um escravo do sistema que criara para tirar a liberdade aos demais;
escravizando, tornou-se escravo de si mesmo. Salazar é um escravo que
escraviza, um mentiroso que obriga os outros a mentirem; um criminoso que
impele os seus auxiliares a prender, torturar e matar; um escamoteador, que
incita os seus auxiliares a roubar.
Tirar a liberdade é roubar; apoderar-se da literatura
social – ato corriqueiro e muito praticado nos correios portuguêses, onde
funciona a polícia política a mando do famigerado ditador – é furtar, e tudo
isso é executado por um sistema ditatorial do qual são vítimas os que perseguem
e os que são perseguidos. Oliveira Salazar tem larga semelhança com José Duro,
o poeta tuberculoso, que em seu livro ”Fel” afirmava odiar à vida, só porque se
sentia morrer lentamente, só porque não podia viver como os demais. E
conclui-se que: Salazar é uma vítima da angústia, doença que tenta transferir
para os seus concidadãos. Quem algum dia já viu o ditador alegre, divertido,
falando da família ? das crianças que alegram a vida? Salazar, como o poeta
tuberculoso, odeia a vida, porque não vive! Repudia a família, porque não a
tem! Não permite que se fale livremente e
encera os que tentam usar a liberdade, porque gosta das trevas como o
morcego procura os subterrâneos e a solidão.
No
meu protesto não almejo fazer o jogo de qualquer movimento político partidário,
correntes a que estou alheio por convicção ideológica. Tão pouco pretendo
atacar os homens como cidadãos, como chefes de família, mas tão só como políticos
dirigentes dum sistema ultrapassado e pontilhado de sangue aqui e ali, ao longo
de uma existência de mais de 30 anos.
Não
esqueço também, os "anti-fascistas”, e oposicionistas, de todas as
correntes – que se perdem em discrepâncias banais e se subdividem pelo exilio e
em Portugal – sem olhar para esse passado de 34 anos de oposição, trabalho até
agora feito para derrubar a ditadura, e que na realidade, mais ajudou a
consolidá-la do que liquidá-la definitivamente. O balanço das vítimas da
ditadura – já não direi dos atingido pela falsa educação e vítimas da
mistificação de Fátima – mas dos que morreram pelas prisões ou fora delas, mas
em conseqüência das mesmas, e dos que a cada instante transpõem os Umbrais das
câmaras de tortura, e que atinge a casa dos milhares, sem que dêsse sacrificio
se tenha sacado resultados práticos. Eis a realidade nua.
Já
lá vão 34 anos, tempo demasiadamente longo para se planejar e executar a
derrubada de uma tirania, que só pela força veremos desaparecer. Ninguém levará
à Península Ibérica a liberdade, a não ser conquistada pelo próprio povo de
Portugal e da Espanha. A liberdade do Povo Ibérico terá que ser uma conquista
do próprio povo e não uma dádiva circunstancial, para ficar como está, com
rótulo diferente.
As
páginas que o leitor lerá, não têm o bom sabor e o brilho literário que lhe
poderiam em prestar os mestres da gramática - que não raro se perdem atrás do
estilo, esquecendo a substância e os fatos, – tão pouco se destina a agradar as
correntes da direita ou da esquerda. Sua missão é a de trazer a verdade amarga
e cruel, mas a verdade.
Edgar Rodrigues