Jornal COMBATE - 2 publicações Vosstanie Editions

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Algumas sugestões bibliográficas, muito pessoais, sobre os gestores / João Bernardo

Estas indicações bibliográficas vão ao arrepio do que se tornou uso nas universidades, porque cito clássicos e autores defuntos. Ora, a partir do momento em que o número de citações passou a fazer parte do curriculum, os orientadores praticamente impedem os alunos de mencionar mortos, porque seria o mesmo que enterrar dinheiro em cemitérios. Mas, dado que eu conduzo as pesquisas como acho correcto e não para alimentar os curricula, cito os autores e indico as pistas que me parecem melhores para ter uma ideia do assunto. 


Para estudar os gestores deve obrigatoriamente começar-se por Makhaisky. Foi ele o primeiro a conceber de maneira sistemática os gestores como classe social específica. Existe uma tradução em português das passagens mais elucidativas da obra de Makhaisky nas págs. 84-170 de Maurício Tragtenberg (org.) Marxismo Heterodoxo, São Paulo: Brasiliense, 1981. Existe uma biografia de Makhaisky: Marshall S. Shatz, Jan Wacław Machajski. A Radical Critic of the Russian Intelligentsia and Socialism, Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1989. Este livro não é nada de extraordinário, mas não há outra biografia, pelo menos que eu conheça. 

Os prolegómenos do estudo dos gestores é em Saint-Simon que se encontram. A mesma função que Smith e Ricardo cumprem para a teoria económica cumpre Saint-Simon para a teoria da classe dos gestores. Existe uma edição da obra completa de Saint-Simon, mas é um tanto atabalhoada e sem um bom aparelho de notas: Oeuvres de Claude-Henri de Saint-Simon, 6 vols., Paris: Anthropos, 1966. Quando estudei Saint-Simon esta edição era a única existente; não sei se entretanto se teria feito melhor. Escrevi uma pequena síntese de algumas das noções de Saint-Simon nas págs. 17-39 de João Bernardo, Democracia Totalitária. Teoria e Prática da Empresa Soberana, São Paulo: Cortez, 2004. O livro encontra-se na internet, não sei por que artes, e não me dei ao trabalho de verificar se se trata de uma versão correcta, mas por que não se trataria? 

Para estudar a evolução dos gestores como classe, no seu campo de acção, o melhor é estudar a evolução das teorias de administração de empresa. Não faltam livros neste âmbito, aconselho um que tenha as seguintes características: anglo-saxónico, volumoso, com abundantes notas de rodapé e bibliografia. Estudar Alfred Sloan Jr, Elton Mayo e depois os teóricos mais recentes do toyotismo e da qualidade total é estudar os grandes inovadores e conceptualizadores da gestão. 

Na esquerda ou, mais exactamente, na extrema-esquerda, a noção da existência dos gestores enquanto classe social específica e dominante foi gerada na crítica à evolução da União Soviética e ao stalinismo. Como a burguesia havia sido aniquilada fisicamente ou eliminada economicamente e a propriedade dos meios de produção cabia ao Estado, mas como, apesar disto, as relações sociais de trabalho continuavam inalteradas, os críticos de extrema-esquerda argumentavam que existia uma outra classe capitalista, que aproveitara em seu benefício a revolução bolchevista. Para uns, essa outra classe seria pós-capitalista, o que definiria o regime soviético como nem capitalista nem comunista; enquanto, para outros, essa classe seria capitalista, o que definiria o regime soviético como um capitalismo de Estado. Existe uma excelente resenha bibliográfica destas polémicas: Henri E. Morel, «As Discussões sobre a Natureza dos Países de Leste (até à Segunda Guerra Mundial): Nota Bibliográfica», em Artur J. Castro Neves (org.) A Natureza da URSS, Porto: Afrontamento, 1977. 

Na verdade, a questão vinha já dos primeiros anos do regime bolchevista e encontram-se muitas indicações e pistas de pesquisa no segundo volume da conhecida trilogia de Edward Hallett Carr, A History of Soviet Russia. The Bolshevik Revolution, 1917-1923, 3 vols., 1952. O livro existe na Penguin. 


Para uma perspectiva genérica do período da NEP, do começo do stalinismo e da génese destas polémicas, é indispensável Anton Ciliga, Au Pays du Mensonge Déconcertant. Dix Ans derrière le Rideau de Fer, Paris: Gallimard e Union Générale d’Éditions (10/18), 1977 [1ª ed.: Au Pays du Grand Mensonge, Paris, 1938. 2ª ed., tiragem restrita: 1950]. 

Para analisar estas posições com mais detalhe convém ler um dos expoentes da concepção dos gestores como classe pós-capitalista: Bruno Rizzi, L’U.R.S.S.: Collectivisme Bureaucratique (La Propriété de Classe), Paris: Champ Libre, 1976 [1ª ed.: La Bureaucratisation du Monde, 1ª Parte, Paris, 1939]. Note-se que esta reedição da obra se limita a um dos volumes, ocultando a adesão de Rizzi ao fascismo, que é o tema do outro volume: Bruno R[izzi]., Quo Vadis, América? (Est-ce un “New Deal”?), Paris: ed. do autor, 1939. Mas esta edição é muito difícil de encontrar. 

Muitíssimo mais interessante do que Rizzi, na minha opinião, é Lucien Laurat, por exemplo: Lucien Laurat, L’Économie Soviétique. Sa Dynamique, son Mécanisme, Paris: Valois, 1931; Lucien Laurat, Économie Dirigée et Socialisation, Paris e Bruxelas: L’Églantine, 1934. Eu escrevi acerca de Laurat uma série de quatro artigos de divulgação num site: João Bernardo, «Lucien Laurat no País dos Espelhos», 


Note-se que Trostsky defendeu até ao fim o carácter economicamente socialista da União Soviética, com o argumento de que a estatização da propriedade dos meios de produção seria suficiente para definir o socialismo. Assim, para Trotsky a burocracia stalinista era uma camada social parasitária, mas não uma classe social específica. No seu exílio Trotsky conduziu permanentemente uma dupla polémica, à direita contra o stalinismo, e à esquerda contra aqueles que consideravam que a classe dominante soviética eram os gestores. Assim, encontram-se muitas pistas de análise interessantes nas obras de Trotsky desse período, mais nos artigos do que nos livros. Existe uma edição dos artigos de Trotsky escritos entre 1933 e 1940, organizada por George Breitman e Evelyn Reed e depois por George Breitman e Bev Scott, publicada em Nova Iorque pela Merit e depois pela Pathfinder de 1969 a 1972. 

Uma das figuras que rompeu à esquerda com o trotskismo, defendendo a existência dos gestores como classe social específica e o seu papel como classe dominante no regime soviético foi James Burnham. Nesta perspectiva, a sua obra mais importante é The Managerial Revolution, publicada em 1941. Na minha opinião, o lugar de destaque geralmente atribuído a Burnham é injustificado e injusto, pois este autor nada acrescentou ao que a extrema-esquerda, quero dizer, aqueles situados à esquerda de Trotsky, já havia defendido. Mas Burnham era um universitário e adoptou posições de direita durante a guerra fria, o que o tornou popular em muitos meios e assegurou a divulgação dos seus livros. 

E passo para outra vertente da teoria da classe dos gestores. Uma das principais figuras nesta vertente foi Walther Rathenau. Há muitos estudos sobre ele. Rathenau faz lembrar Keynes, porque foi um administrador de empresa, um ensaísta, um político e um amante da arte, e também por ter sido uma das inteligências mais brilhantes da época. Musil, em O Homem Sem Qualidades, inspirou-se em Rathenau para uma das figuras. Rathenau esteve à frente das tentativas de organização da economia e de planificação central prosseguidas pelo estado-maior alemão durante a primeira guerra mundial. Ora, estas tentativas influenciaram poderosamente as noções de Lenin acerca da organização económica, como se pode ver em muitas das suas obras de 1917 em diante. Assim, o estudo das concepções de Rathenau ajuda também a compreender a situação soviética. 
Além da figura de Rathenau, a vertente tecnocrática na república de Weimar é importante. Encontram-se muitos fios de pesquisa numa excelente antologia: Anton Kaes, Martin Jay e Edward Dimenberg (orgs.) The Weimar Republic Sourcebook, Berkeley, Los Angeles e Londres: University of California Press, 1995. É indispensável estudar as obras de Siegfried Kracauer sobre a tecnocracia e a burocracia. 

Depois, durante o Terceiro Reich, a vertente tecnocrática foi especialmente notória nas figuras do engenheiro Fritz Todt e do arquitecto Albert Speer, ambos muito importantes na hierarquia nazi. É fundamental a leitura das memórias de Speer, traduzidas em várias línguas. 

Um dos aspectos mais interessantes, e pouco estudados, é a aliança estabelecida entre Speer e Jean Bichelonne. Bichelonne era um jovem geniozinho e o mais notável de uma constelação de tecnocratas que se puseram ao serviço do regime fascista de Vichy. Acerca desta tecnocracia durante o regime de Vichy teceram-se as histórias mais delirantes. Dois exemplos: Henry Coston (org.) Les Technocrates et la Synarchie, Paris: Lectures Françaises, 1962; Olivier Dard, La Synarchie ou le Mythe du Complot Permanent, Paris: Perrin, 1998. Num plano de grande seriedade, encontram-se muitas pontas de pesquisa naquela que é, para mim, a melhor obra sobre o regime de Vichy: Robert O. Paxton, La France de Vichy, 1940-1944, Paris: Seuil, 1973 (a edição original é norte-americana: Vichy France. Old Guard and New Order, 1940-1944, 1972). A partir desta obra pode verificar-se um elo de continuidade entre a tecnocracia que em Vichy adoptou o fascismo e a tecnocracia que, juntando-se a De Gaulle, adoptou a democracia. Jean Bichelonne numa ponta e, na outra ponta, Jean Monnet, ambos em nome de um europeísmo tecnocrático. Para compreender estas articulações ideológicas é interessante ler Henri Michel, Les Courants de Pensée de la Résistance, Paris: Presses Universitaires de France, 1962. Vemos aí como as concepções tecnocráticas vigentes em Vichy influenciaram alguns dos meios mais importantes da Resistência. Um dos grandes elos de ligação foi o economista François Perroux, que exerceu uma grande influência sobre a tecnocracia francesa fascista ou fascizante antes de 1944 como, depois, sobre a tecnocracia do Mercado Comum, assim como sobre a tecnocracia das independências africanas, graças aos seus estudos sobre o desenvolvimento económico. 

No fascismo italiano, uma das figuras mais importantes da ala tecnocrática foi Giuseppe Bottai. Vale a pena pesquisar o que ele escreveu, nomeadamente as memórias: Giuseppe Bottai, Vent’Anni e un Giorno, [s. l.]: Garzanti, 1949. Sobre a tecnocracia como elemento de relação entre o fascismo italiano e o New Deal norte-americano é interessante ler: Giuseppe Bottai, «Corporate State and N. R. A.», Foreign Affairs, 1934-1935, XIII, nº 4. 

Aliás, o estudo do New Deal é importante para mostrar que a vertente fascista da tecnocracia e a sua vertente democrática puderam estar amalgamadas. Distinguimo-las porque a história as distinguiu noutros países, mas, se nos limitássemos aos Estados Unidos, só teríamos razão para as juntar numa realidade única. Sobre o New Deal há um monumento da historiografia, a trilogia que Arthur M. Sclesinger Jr dedicou à época de Roosevelt, mas que cobre o período de 1919 até 1936. Encontram-se aí vários elementos de pesquisa muito sólidos sobre o pensamento tecnocrático. Acerca do assunto, um dos autores básicos nos Estados Unidos é Adolf A. Berle Jr, nomeadamente Power without Property. A New Development in American Political Economy, Nova Iorque: Harcourt, Brace & World, 1959; e é um clássico a obra que ele escreveu juntamente com Gardiner. Means, The Modern Corporation and Private Property, Transaction, 1932. 

Em Espanha, tanto durante a Segunda República como durante o fascismo, foi em torno de Ortega y Gasset que se reuniu a tecnocracia modernizadora, que veio a fornecer o principal eixo de evolução do franquismo. 

Em Portugal, na minha opinião, deve atribuir-se um papel central a Adérito Sedas Nunes e à Análise Social. Foi essa a grande escola de pensamento e de acção da tecnocracia portuguesa. Mas não caíram do céu e tiveram precursores ao longo do fascismo, nomeadamente o engenheiro Araújo Correia. Em geral, foi em algumas secções da Câmara Corporativa e em torno dos Planos de Fomento que se formou a base da tecnocracia poprtuguesa, hoje dominante. Aliás, é curioso que Franco Nogueira considerou, e a meu ver com razão, os governos de Salazar como precursores dos governos tecnocráticos. Escreveu ele: «Salazar abre assim em Portugal a era da tecnocracia» (Franco Nogueira, Salazar, vol. III, Coimbra: Atlântida, pág. 290, sub. orig.). 

No Brasil é interessante verificar que os gestores têm garantido a continuidade económica num país onde a vida política foi atribulada. Se obervarmos as presidências de Getúlio Vargas, depois a de Juscelino Kubitschek, depois o regime militar, depois as duas presidências de Fernando Henrique Cardoso e, por fim, as três presidências do PT, constatamos a solidez de uma camada gestorial subjacente, que tem fornecido à economia um eixo de continuidade e um movimento ascencional quase ininterrupto. Quando eu cheguei ao Brasil os principais teóricos da tecnoburocracia — uma nomenclatura que corresponde exactamente ao que eu denomino gestores — eram Bresser Pereira e Fernando Prestes Motta. O Fernando morreu prematuramente e o Bresser Pereira, uma das grandes inteligências brasileiras, deixou de estar politicamente interessado em prosseguir esse rumo de analise. Ele foi um dos ministros mais importantes de Fernando Henrique Cardoso e agora rompeu com o PSDB para se aproximar a passos mansos do PT e do desenvolvimentismo industrialista. Mas vale a pena ler o que ele escreveu acerca do assunto durante o regime militar: Luiz Carlos Bresser Pereira, A Sociedade Estatal e a Tecnoburocracia, São Paulo: Brasiliense, 1981. Há um estudo interessante: Maria de Lourdes Manzini Covre, A Fala dos Homens. Análise do Pensamento Tecnocrático, 1964-1981, São Paulo: Brasiliense, 1983. Há pouco tempo enviaram-me uma tese já antiga, que ainda não li, mas que pode ser interessante: Roberto Grün, A Revolução dos Gerentes Brasileiros, Campinas: Unicamp, 1990. Enviarei em anexo. 

Finalmente, existe um livro meu que é de certo modo um remake do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista, embora acho que quem se apercebe de que é um remake sou eu e não os leitores: João Bernardo, Economia dos Conflitos Sociais, São Paulo: Cortez, 1991 e São Paulo: Expressão Popular, 2009. A primeira edição na Cortez esgotou-se, essa editora não se mostrou interessada em o reeditar e a segunda edição esgotou-se igualmente, mas entretanto eu tomei várias posições públicas críticas ao MST e a Expressão Popular, que é próxima a esse Movimento, também não se interessou por fazer nova edição. Como o livro é de fácil acesso em bibliotecas e alfarrabistas e como estou farto de editoras, decidi disponibilizar os pdfs e coloquei-os na internet. Para maior facilidade, envio em anexo. A questão dos gestores é tratada sobretudo nas págs. 170-234 da versão em pdf. 

Com estas pistas e com as indicações bibliográficas que se podem encontrar nas notas de rodapé relativas às passagens consideradas mais interessantes, creio que há material suficiente para encetar uma pesquisa. 



 
Publicado em 2019

Era um mundo / João Bernardo Vosstanie Editions

sexta-feira, 8 de março de 2019

Um percurso: a classe dos gestores / João Bernardo

Um percurso:
a classe dos gestores

No início de 1963 foi publicado o primeiro número da revista Análise Social, que renovou a sociologia em Portugal. O seu fundador, inspirador e director durante muitos anos foi Adérito Sedas Nunes, que, no plano intelectual, teve um papel muito importante na transição do fascismo para a democracia capitalista. Analisei este papel no Labirintos do Fascismo, 3ª versão. Pode procurar usando controle f ou o índice de personagens no final do livro.


Comecei a minha actividade política contra o fascismo no início do ano lectivo de 1961-1962, com quinze anos de idade. Eu militava tanto no movimento estudantil como na acção clandestina, na periferia do Partido Comunista. No início do ano lectivo de 1963-1964 passei para a universidade e entrei então para o Partido Comunista, mas já como militante. A Análise Social aparecia-nos, a mim e a outros colegas, como um sopro renovador no ambiente esclerosado da academia portuguesa no salazarismo, e foi aí que pela primeira vez deparei com a noção de uma tecnocracia modernizadora com interesses sociais próprios. A raiz do que mais tarde eu definiria como classe dos gestores, foi aí que a encontrei.


No final do ano lectivo de 1964-1965 fui expulso de todas as universidades portuguesas por um período de oito anos, a mais longa expulsão decretada pelo fascismo português durante os seus quarenta e oito anos de existência. Em 1965-1966 fui preso três vezes, e pouco depois da minha última prisão decidi abandonar o Partido Comunista. Em 1964 ocorrera uma cisão maoísta, que levara à fundação conjunta do Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) e da Frente de Acção Popular (FAP). Estas duas organizações foram completamente destruídas pela Pide, a polícia política, no final de 1965. Quando saí do Partido Comunista, em 1966, encetei, junto com alguns camaradas, a reconstrução, a partir do zero, de uma organização maoísta. Em Novembro de 1967 a Pide destruiu praticamente tudo o que tínhamos criado, mas eu consegui, junto com outros dois camaradas, passar à clandestinidade antes de sermos presos. Na clandestinidade, um desses camaradas permaneceu inactivo e o outro foi preso pouco depois, ainda em Novembro de 1967 ou no começo de Dezembro. Fiquei sozinho a reconstruir o que me era possível. Durante esse período de clandestinidade escrevi um texto bastante longo intitulado Portugal 1968: Um Ponto Morto?, onde me lembro que usei a noção de uma tecnocracia com interesses sociais próprios, que apreendera na leitura da Análise Social. Esse texto foi então policopiado e distribuído clandestinamente. Eu não tenho nenhum exemplar, e Miguel Cardina, o historiador que melhor estudou a extrema-esquerda portuguesa durante esse período ( https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/15488/1/Tese%20doutoramento_Miguel%20Cardina.pdf ), diz que não conseguiu encontrar nenhum exemplar. Se ele não o conseguiu, ninguém mais conseguirá. Aliás, para conhecer a minha actuação política antes do 25 de Abril de 1974 pode ler o que o Cardina escreveu a meu respeito nessa obra.


Em Junho de 1968, terminado o trabalho de reconstrução da organização maoísta, a que me era possível proceder naquelas condições, passei clandestinamente a fronteira e fui para Paris, onde vivi também clandestinamente, ou seja, com documentos de identificação falsos, até Abril de 1974. Em Outubro de 1969 rompi com a organização maoísta central, o CMLP ( https://archive.org/details/jb-cdt ). Mais exactamente, eu ia ser expulso e antecipei-me um dia, só para dizer que tinha sido eu a sair.


Na sequência da minha saída do CMLP fundei, junto com outros camaradas, que na altura estavam todos em Portugal, os Comités Comunistas Revolucionários (CCR) ( https://pt.wikipedia.org/wiki/Comit%C3%A9s_Comunistas_Revolucion%C3%A1rios_Marxistas-Leninistas ). Escrevi então um longo artigo, À Esquerda de Cunhal Todos os Gatos São Pardos, publicado em números sucessivos da revista teórica dos CCR, intitulada Viva o Comunismo! ( https://archive.org/search.php?query=Jo%C3%A3o%20Bernardo ). Álvaro Cunhal era o secretário-geral do Partido Comunista e o artigo fazia uma crítica às concepções do Partido Comunista e às concepções de uma variedade de organizações e grupos que, entretanto, haviam surgido na área do maoísmo e do marxismo-leninismo. Não reli esse artigo, e aliás devo dizer-lhe que nunca releio os meus textos, como medida profiláctica para não pôr travões à imaginação e manter a criatividade. Mas lembro-me de que um dos eixos centrais da análise consistia na distinção entre uma pequena-burguesia de raiz pré-capitalista, formada por artesãos, pequenos comerciantes e gente desse género, e outro tipo de pequena-burguesia, que se desenvolvia e crescia com o crescimento do capitalismo, formada por profissões como os engenheiros e outros tecnocratas. Nesta série de artigos eu dava um maior desenvolvimento àquilo que esboçara no Portugal 1968: Um Ponto Morto? e que apreendera na leitura da Análise Social.


Entretanto, cabe explicar o seguinte. Após a minha ruptura com o CMLP, a imprensa do CMLP passou a acusar-me sistematicamente de trotskismo. É claro que esta era uma acusação habitual nos meios stalinistas, mas foi tão sistemática que eu pensei: será que sou mesmo trotskista? Em Portugal não havia então nenhuma organização trotskista, e aliás nunca houvera, mas se eu fosse trotskista escusava de perder o meu tempo no meio maoísta. Até essa altura eu lera três ou quatro livros de Trotsky, e decidi então ler tudo o que me fosse possível, o que em Paris não era difícil. Li os livros dele. E nessa época os trotskistas americanos haviam recolhido e editado em vários volumes os artigos que o Trotsky escrevera depois de ter saído da União Soviética. Comprei estes volumes e estudei aquilo tudo atentamente, com três resultados. O primeiro, foi que cheguei à conclusão de que eu não era trotskista. O segundo resultado, é que passei a ter um conhecimento detalhado da obra de Trotsky, que me tem servido até hoje.


Mas houve ainda um terceiro resultado, que interessa aqui especialmente. Depois de ter abandonado a União Soviética, além dos seus ataques a Stalin e ao stalinismo, Trotsky passou a conduzir sistematicamente uma luta política dupla, que é muito mais visível nos artigos do que nos livros. Por um lado, ele atacava aqueles a quem acusava de «centrismo», ou seja, que acusava de oscilarem entre o stalinismo e as posições dele, Trotsky, e pouco mais tarde da IV Internacional, a partir do momento em que foi fundada. Estes «centristas» reuniam-se em torno do Bureau Londres-Amesterdão e incluíam os socialistas noruegueses; o POUM espanhol, com Joaquìn Maurìn e Andrès Nin; o grupo de Saint-Denis, com Doriot, antes de se terem convertido no principal partido fascista francês; os holandeses de Henk Sneevliet; Victor Serge e outros. Ao mesmo tempo, Trotsky conduzia uma luta contra todos aqueles que classificavam o regime soviético, não como um socialismo degenerado, mas como um verdadeiro sistema de exploração de classe, e que consideravam a burocracia soviética, não como uma casta privilegiada, mas como uma verdadeira classe exploradora. Em termos muito gerais, estes militantes à esquerda de Trotsky dividiam-se em duas grandes correntes. Uns consideravam o regime soviético como um capitalismo de Estado e consideravam a burocracia ou como uma burguesia de Estado ou como uma classe capitalista não burguesa. Outros consideravam o regime soviético como um sistema económico pós-capitalista e a burocracia como o protótipo de uma classe dominante pós-capitalista. Tratei em parte esta questão no Labirintos do Fascismo, 3ª versão, nas págs. 467 e segs.


Assim, a leitura das polémicas de Trotsky abriu-me os olhos para toda uma gama de autores que, na extrema-esquerda, consideravam a existência de uma classe exploradora que não era a burguesia tradicional. Quero aqui chamar a atenção para o facto de eu ter conhecido esses autores não pelas obras deles, que em boa parte eram dificílimas de encontrar, e ainda hoje o são, mas pelas acusações de Trotsky. Esta foi uma contribuição decisiva para eu desenvolver as noções que começara a esboçar no Portugal 1968: Um Ponto Morto? e no À Esquerda de Cunhal Todos os Gatos São Pardos.


Entretanto, a Revolução Cultural chinesa perdera o carácter de base e a espontaneidade que a caracterizara inicialmente e fora completamente militarizada, uma evolução que nos deixava, nos CCR, cada vez mais perplexos. A visita de Nixon à China, em Fevereiro de 1972, foi a proverbial gota de água que fez transbordar o copo. Eu redigi então um documento interno que fiz circular nos CCR, a cuja direcção pertencia, e que usei mais tarde como capítulo 25 do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista, págs. 231 e segs. ( https://archive.org/details/jb-putdmdpc/page/n207 ). Note que este livro foi escrito no Verão de 1973, embora só tivesse sido publicado, na versão conhecida, no começo de 1975. Não me recordo se para a publicação de 1975 introduzi algumas modificações no referido documento interno, mas, se o fiz, foram apenas de estilo. Aqui eu já considerava que o regime soviético e a China eram capitalismos de Estado e que a sua classe dominante era capitalista, embora distinta da burguesia tradicional, e considerava que esta mesma classe capitalista não-burguesa existia também nos capitalismos ocidentais. Estas teses desencadearam uma grande polémica não só no interior da direcção dos CCR, composta por cinco pessoas, sendo eu uma delas, mas no interior de toda a organização. A minha posição era muito minoritária e no meio dessa discussão, que estava a chegar ao ponto de ruptura, ocorreu o golpe militar de 25 de Abril de 1974, com a subsequente revolução social. Eu e mais dois camaradas, Rita Delgado e João Crisóstomo, deixámos então os CCR seguir o seu destino e fundámos o jornal Combate ( http://jornalcombate.blogspot.com/ ), virado exclusivamente para as lutas práticas dos trabalhadores ( https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/index.htm ). Eu referia-me então a essa classe como tecnocracia, mas no 3º vol. de Marx Crítico de Marx, publicado em 1977 ( https://archive.org/details/jb-mcm-l01vol03 ), usei já a terminologia gestores.


Assim, é interessante considerar que até àquela data toda a minha evolução se fez sem ter lido directamente nenhum dos autores que trataram especificamente da classe dos gestores, uma bibliografia que só vim a ler mais tarde, depois de ter sido convidado a leccionar no Brasil, em 1984. Para isso foi muito importante o convívio com o Maurício Tragtenberg e igualmente com o Bresser Pereira e com o Fernando Prestes Motta, que falavam então de tecno-burocracia, exactamente na acepção em que eu emprego o termo gestores.


17 de Fevereiro de 2019

João Bernardo