THEMES

Bibliographie Films Jornal COMBATE Charles Reeve João BERNARDO Luttes de classe au Portugal Commissions de tra­vailleurs Journal Combate PDF Radio Vosstanie déserteurs réforme agraire 1975 DVD Documentaire Jorge Valadas LA REFORME AGRAIRE AU PORTUGAL La lanterne noire Moradores Rui Simões Videos Vidéo désertion 1969 Autogestion Autonomie Brésil CCI Cadernos dre Circunstância Carlos Cavalheiro Chanson Chronologie Combate Courant Communiste International Dans le monde une classe en Lutte Edgar Rodrigues Edições Afrontamento GLAT Histoire du mouvement ouvrier JOSÉ MARIO BRANCO Joao BERNARDO José Afonso José Hipólito dos Santos José Vieira LUAR Patricia McGowan Pinheiro Peter Fryer Revue Spartacus SPARTACUS Socialisme et liberté Spartacus Socialisme et liberté N°64 Torre Bela cinéma militant commissions de Moradores conseils ouvriers exilés politiques portugais insoumis 18 de janeiro de 1934 1963 1972 1976 1977 1° international 25 NOVEMBRE 1975 25 avril 25 avril 1974 29/01/1976 29/04/1974 4 DE JULHO DE 1937 A HISTÓRIA DO ATENTADO A Lei da Terra A boca do lobo A revolta do 18 de janeiro de 1934 ATENTADO A SALAZAR Academia Afonso Cautela Alain GUILLERM Alex Macleod Alliance de classes Amis de Louis Lecoin Anarquismo Angola Angola 1961 Angola colonial Anti-militarisme Appel à contributions Aquilino Ribeiro As Operações SAAL As armas e o Povo Association des Groupes Autonomes Anarchistes Associação Memoriando Autogestion et Socialisme 33-34 Autoridade Avril 1976 B. Lory BR Baixa de Cassange Balada Bom Povo Português Brigadas Revolucionárias Bulledor C. Ferreira C. Orsoni CADERNOS DE DIVULGAÇÃO CEDETIM COMMISSION DE TRAVAILLEURS Cabo Verde Cadernos de Circunstância n°1 Mars 1969 Camarades N°3 Camp de Tarrafal Capitalisme d'Etat Carlos Antunes Carlos Da Fonseca Centre d'Etudes anti-impérailistes Chanson militante Charles Reeve. Christine Messiant Chroniques Portugaises Class Struggle in Portugal Classes et Conflits dans la Société Comissoes de moradores Comité Portugal Comité de Soldats Conclusion Contre-chronologie Coup pour Coup n°3 Critique du Léninisme Cronologia Cronologia da Revolução do 25 de Abril DRIL Daniele Kergoat Deus Diana Andringa Directoire révolutionnaire ibérique de libération Directório Revolucionário Ibérico de Libertação Du fado de Coimbra Ecologia Ecologia e luta de classes Ecologie et lutte de classes au Portugal Editions Spartacus Ediçoes SPARTACUS Edições Espaço Emission du 31 Mai 2014 Emission la lutte des classes au Portugal Emídio Santana Esquerda radical Estado colonial português Expropriations F. Avila FOR OURSELVES FP-25 FSMR Fascismes Fascismo Fernando Pereira Fernando Pereira Marques Front des Soldats et Marins Révolutionnaires du Portugal Fátima Patriarca GRANDOLA VILA MORENA Galvão Gauche radicale Ginette Lavigne Grupo Zero Grèves Guerre Guiné-Bissau Histoire de l'anarchisme au Portugal História da LUAR Isabel do Carmo Joana Dias Pereira Joana Gorjão Henriques José Filipe Costa José Hipólito Santos José Pacheco PEREIRA José Tavares Journal Libération Journal a Republica Journal portugais Combate N° 34 (29/01/1976 João Dias Julio Henriques L'Autre Combat L'expérience Portugaise LE MANIFESTE ANT-COLONIAL LE PRINTEMPS DE L'EXIL LINHA VERMELHA La Lanterne Noire n°4 décembre 1975 La documentation française. N° 234 La démocratie de la gauche et des patrons Lauro Escorel Le Mouvement social Le Portugal entre deux chaises Le pain que le diable a pétri Le réfractaire Le réfractaire N° 12 septembre 1975 Les Grandes Ondes (à l'ouest) Les Oeillets Sont Coupés Letra Livre Liberdade Económica Libertários Libération le 27 avril 1977 Lisnave Littérature Livros Proibidos Loren Goldner Lutte armée au Portugal Lutte de classe pour le pouvoir des travailleurs Luttes des classes Luís Bigotte Chorão MANIFESTO DO COMBATE MFA Manifeste de l’armée Maria Isabel Barreno Maria Teresa Horta Maria Velho Costa Maurice Brinton Mensuel n° 98- octobre 1978 R 11 Miguel Cardina Militant anarchiste Mouvements urbains Movimento Operario Moçambique e São Tomé e Príncipe Nadejda Tilhou Nouvelles lettres portugaises N° 50 de Front Libertaire Avril 1976 N°10 - 15 octobre 1975 N°34 O Pulsar da Revolução ORA Occupations de Terres Operação Dulcineia Opération Dulcinée Organisation Révolutionnaire Anarchiste Os Vampiros Os proletários não têm pátria Otelo de Carvalho Ouvriers agricoles PCF PCI PIDE PRP Partido Revolucionário do Proletariado Phil Mailer Photographies Portugal Libertario N°4 Janeiro 1974 Prolétariat universel Pátria RACISMO RED LINE Reflexão sobre a estratégia da luta das classes em Portugal Repressão do Anarquismo Reprint República Rás-Te-Parta Resistência Armada em Portugal Revue Internationale Revue Internationale no 4 - 1e trimestre 1976 Revue Internationale no 7 - 4e trimestre 1976 Revue Internationale no 8 - 1e trimestre 1977 Revue Internationale no 9 - 2e trimestre 1977 Revue Marge - n°2 Juillet-Août 1974 Revue Migrance n°43 Ronald H. Chilcote Rosa Luxemburgo Rouge et noir 7 Ruedo Iberico Ruedo Ibérico Révolution des Œillets Santa Maria Sindicalismo Revolucionário Sogantal Solidarity Solidarity for workers' power Spartacus N° B 86 Nov-Déc. 1977 Spartacus N°B66R2 / Mars - Avril 1976 Stefanie Zoche Sétubal Ville Rouge TAP Tarrafal Texto subterraneos Thomas Harlan Tract Transição para a Democracia Union Ouvrière Vasco de Castro Vidéos Vosstanie Wilhelm Reich Workers' councils Zeugma antifascisme à affrontement de classes archives archives audio arnaque portugaise autonomie ouvrière canto canto de intervenção colonialisme comissao de moradores commissions de quartier conseillisme document audio démocratie ouvrière féminisme gestion directe historiographie ouvrière immigration informations ouvrières livres interdits livres interdits pendant le régime fasciste lutas urbanas em Setubal manifestations n° 123 (avril-juin 1983) o communista occupations ouvrierisme racisme revoltas réfractaires réseau d'information révolution trahie ? situationnisme situationniste au Portugal sociologie historique du colonialisme textes

sábado, 19 de dezembro de 2015

O VOTO, AS ELEIÇÕES, O ESTADO: ARMAS DO CAPITAL




Ediçoes SPARTACUS, Lisboa Janeiro 1975.92p.


Aos trabalhadores interessa acabar com os patrões e não votar lado a lado com eles. Interessa-lhes tomar nas suas próprias mãos as fábricas, as empresas, os campos, etc., e não eleger os seus próprios exploradores.

Assim, as eleições surgem como meio de encobrir estas relações de exploração e a luta que daí resulta. Mais: a burguesia, ao fazê-las, pretende que esta luta de classes se transforme em colaboração de classes, isto é, que os trabalhadores ajudem a exploração de si próprios.

As eleições constituem antes e essencialmente um campo de manobra para os partidos que nelas participam e que representam todas as saídas possíveis, menos a única que interessa historicamente às massas trabalhadoras: á sua emancipação. A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores. Se estes a não realizarem, ninguém a realizará, pois ela não se delega em ninguém e muito menos no Estado capitalista que a impede violentamente e nos partidos que sempre utilizaram o proletariado para os seus fins de partidos defensores da exploração actual ainda que sob outra forma.

De facto, as massas trabalhadoras só se poderão emancipar lutando radicalmente contra todas as instituições burguesas e levando até às últimas consequências a sua destruição, isto é, agudizando o caos económico do capitalismo, contrapondo-lhe e realizando já na prática o comunismo.



* * *
EXTRAIT p.53-91


O VOTO, AS ELEIÇÕES, O ESTADO: 
ARMAS DO CAPITAL (*) 

I — O SIGNIFICADO GERAL DAS ELEIÇÕES PARA O PROLETARIADO


1) Hoje, em Portugal, toda a gente fala nas eleições. Nos jornais, na rádio e na televisão, gastam-se milhares de contos com uma propaganda mistificatória, que esconde os verdadeiros problemas do dia a dia e da libertação das massas trabalhadoras em luta contra os patrões, contra a exploração, contra o capitalismo.


Perante a actualidade da questão das eleições e das proporções desta propaganda enganosa, para o proletariado, torna-se indispensável esclarecer o verdadeiro sentido das palavras utilizadas quer pelos patrões, quer pelo governo, MFA, meios de informação, quer pelos funcionários dos partidos:
O que significa votar? O que é o Estado? E a Assembleia Constituinte? A «democracia em construção», o que é? O que tem tudo isto a ver com a luta de emancipação dos trabalhadores?

2) O Estado nem sempre existiu. Nos inícios da sociedade humana a vida comunitária assentava na posse colectiva dos bens e haveres existentes. Era o que se chama comunismo primitivo. Existia, no trabalho ou no consuma, um sistema de cooperação e entreajuda ente os homens. A riqueza de uns e a pobreza de outros erà. ainda desconhecida. Isto quer dizer que ninguém vivia do trabalho dos outros e que ninguém tinha necessidade de trabalhar para outro.

Nesta forma de organização social o Estado não tinha o mínimo cabimento, porque a opressão de uma classe por outra não existia. Da mesma maneira, não existia nem uma polícia, nem um exército, nem um corpo de funcionários parasitas com as funções de velar, fiscalizar a exploração do trabalho humano. Pelo contrário, eram as assembleias de todas as pessoas que, colectiva e directamente decidiam das questões que diziam respeito à vida social.

Só quando, numa fase mais avançada do desenvolvi-menuto da produção e da divisão do trabalho, alguns membros destas sociedades, utilizando a força, se começaram a impor e a enriquecer, fazendo dos outros escravos, e da propriedade colectiva propriedade sua, surgiu para eles a necessidade de defender os bens que adquiriram. Para isso começaram por utilizar grupos armados, destruíram a prática das assembleias colectivas, tornando-se chefes com um corpo de guardas e vigilantes, que garantiam o domínio sobre os outros homens.

Foi assim que, lentamente se foi constituindo uma organização de polícias e funcionários a que se chamou Estado, e que hoje tem as monstruosas proporções por todos conhecidas. O Estado, portanto, não é mais do que uma máquina ao serviço de uma classe que oprime e explora outra: dos senhores dos escravos, dos senhores dos servos e dos campos na Idade Média ou dos senhores patrões, donos de fábricas de hoje.

3) Efectivamente, hoje também o Estado capitalista surge como instrumento da classe que possui os campos, as fábricas, o dinheiro, os bancos, etc.

Quando, ainda sob a dominação dos senhores feudais, esta classe começou a formar-se e a desenvolver-se através do comércio e das indústrias nascentes, teve necessidade de derrubar o poder económico e político dos senhores feudais e do seu Estado.

Nesta luta contra o feudalismo, propunha-se dar liberdade aos servos que trabalhavam nos campos para os senhores feudais. As revoluções burguesas (inglesa, francesa, etc.) de há três séculos foram o culminar dessa luta. Nos seus programas inscreviam os capitalistas: Liberdade, Fraternidade, Igualdade. Tudo isto seria conseguido eom a instauração de um Estado democrático onde «todos os cidadãos seriam iguais perante a lei» e «teriam as mesmas possibilidades de adquirir o bem-estar e a riqueza». As eleições livres e o sufrágio universal surgiram com o novo Estado capitalista democrático, assim como as Assembleias Nacionais, os Parlamentos, os partidos políticos.

Mas, apesar destas realizações da «democracia», a exploração dos trabalhadores pelos patrões não só não acabou como se intensificou, multiplicando-se por milhões o número de assalariados.

E isto porquê? Porque, de facto ,a liberdade proclamada pelos capitalistas não era mais do que a «liberdade» que os antigos servos tinham agora de vender «livremente» a sua força de trabalho aos novos patrões. Estes, tinham necessidade de aumentar os seus lucros, explorando o maior número possível de trabalhadores, o que era dificultado pela submissão dos trabalhadores aos senhores feudais. Era a libertação do jugo dos senhores feudais o verdadeiro significado da liberdade defendida pela burguesia. Enfim, a liberdade de poder ter novos patrões.

Também a igualdade e fraternidade não passavam da igualdade e fraternidade que pode haver entre os exploradores, por um lado, e os explorados, por outro.

E porque só a exploração continuava, a luta contra os novos senhores também continuava apesar ta democracia instaurada.


4) Esse tipo de Estado democrático que a burguesia construiu, manteve-se, nas suas principais características, até hoje, como acontece, por exemplo, em França, Inglaterra, Alemanha, EUA, etc. Que características são essas? Com o fim de legitimar o seu poder sobre as massas trabalhadoras, têm os capitalistas, desde o início, realizado eleições para Assembleias, chefes de Estado e Governos que seriam os órgãos dirigentes da Nação, ou seja, os defensores e administradores do capital.

Mas, poderão as massas trabalhadoras alguma vez conseguir a sua emancipação através destas eleições, destas Assembleias e destes governos?

Vejamos mais de perto o que são as eleições. Se em todos os aspectos da vida social o patrão e o operário são totalmente diferentes por que é que a lei diz que eles são iguais quando votam ? Di-lo para esconder a exploração de que os trabalhadores são vítimas no dia a dia da sua existência. Com efeito, estes, vêem-se forçados a, diariamente, venderem a sua força de trabalho aos capitalistas. O fruto do seu trabalho, só numa parte muito pequena lhes é retribuído, indo o grosso das riquezas por eles criadas para as mãos dos capitalistas. Isto acontecerá sempre, enquanto os trabalhadores trabalharem para outro, enquanto as fábricas, as empresas, os campos, etc., estiverem nas mãos dos capitalistas. Sendo assim, é por demais evidente que o trabalhador, no seu dia a dia tem interesses totalmente opostos aos dos capitalistas.

Aos trabalhadores interessa acabar com os patrões e não votar lado a lado com eles. Interessa-lhes tomar nas suas próprias mãos as fábricas, as empresas, os campos, etc., e não eleger os seus próprios exploradores.

Assim, as eleições surgem como meio de encobrir estas relações de exploração e a luta que daí resulta. Mais: a burguesia, ao fazê-las, pretende que esta luta de classes se transforme cm colaboração de classes, isto é, que os trabalhadores ajudem a exploração de si próprios.

Pretende-se, portanto, desviar o terreno dessa luta, desviando-a das fábricas, dos campos, da rua, para as pomposas assembleias onde os senhores doutores lacaios do capital falam em nome dos trabalhadores, desejando ter sempre explorados de quem falar e exploradores a quem servir.

Pretende-se substituir a luta de classes real e violenta, nos locais de trabalho, pelo fôlego e a «palheta» dos senhores deputados bem falantes. Enfim, interessa aos capitalistas, ter assembleias, parlamentos, que iludam os trabalhadores com a ideia de que ali poderão ser resolvidos os seus problemas, tentando desviar a sua luta de auto-emancipação dos próprios locais em que são explorados.

Interessa-lhes ainda, dividir a classe operária, já que a luta entre partidos que apenas servem o capital começa a ser levada a cabo pelos próprios trabalhadores entre si. Ser do P. S. ou do P. C. começa a ser razão de divisão entre os próprios trabalhadores. Ora, aos trabalhadores não interessa defender este ou aquele partido que lhes é oferecido pelo capital. Perante o capital e os capitalistas toda a classe operária tem um só e mesmo interesse: destruí-los!
Ser deputado é uma bela profissão que dá nome, dinheiro e prestígio. Um bom «tacho» que convém manter, para o que é absolutamente necessário que os trabalhadores continuem a ser explorados. Portanto, para os senhores deputados, não se trata de acabar com a exploração, mas falar dela, enquanto a negoceiam.

É também para isso que os partidos existem. Foi para as eleições que historicamente surgiram os partidos. A estes interessa, ter altos funcionários nos ministérios, nas Assembleias, no Estado, em suma. Por conseguinte, continuar a utilizar o Estado e não destruí-lo — condição fundamental para a libertação dos trabalhadores.

As eleições e os partidos políticos, na medida em que estes se constituem para participar nelas, pressupõem antecipadamente a permanência do aparelho de Estado que, como já vimos, está sempre ao serviço de uma classe exploradora e opressora; hoje os capitalistas.
Esse aparelho e a sua complicada burocracia, são integralmente pagos pelos trabalhadores através dos impostos e dos lucros que fornecem aos capitalistas e, ainda por cima, os trabalhadores não podem ter o mínimo controlo sobre ele, sendo antes o Estado um novo patrão dos explorados, em concorrência ou não com os outros capitalistas.
Ora, se o Estado ou é directamente capitalista, ou serve o capital, e, portanto é explorador, importa às massas trabalhadoras, na sua luta contra a exploração, destruí-lo e construir uma sociedade onde ele não exista.



EM FRENTE PELO COMUNISMO, CLASSE CONTRA CLASSE


Essa sociedade será o socialismo ou o comunismo. Não o «socialismo» russo ou chinês, em que os partidos que subiram ao poder, em nome e à custa da classe operária, se tornaram donos do Estado, nacionalizaram a produção e transformaram o Estado no único grande capitalista que tal como os outros capitalistas, continua a explorar os trabalhadores. Mas o socialismo que é, de facto, a emancipação dos trabalhadores, onde estes serão proprietários colectivos de todos os bens existentes, onde o trabalho assalariado (e portanto o capital) terá desaparecido.

Uma sociedade em que os trabalhadores já não terão necessidade de vender a sua força de trabalho seja por que preço for, e, onde, enfim, serão eles próprios a decidir de todas as questões referentes à vida social.

É por essa sociedade que o proletariado luta desde que existe. Durante essa luta e, nomeadamente, na Comuna de Paris, nos sovietes russos, nos conselhos operários alemães, etc., já o proletariado mostrou o modo como, através da guerra aberta contra o capital, destrói os alicerces do Estado e cria os órgãos que lhe permitem colectiva e directamente orientar a vida em sociedade.
Também hoje, nas fábricas, nas empresas, etc., os trabalhadores criam as formas que lhes permitem conduzir, desse modo, a sua luta, exercendo a verdadeira democracia proletária, em que não há delegados com poder de decisão independentes dos trabalhadores, sendo apenas meros porta-vozes destes e revogáveis a todo o momento. É o que verificamos na maioria das Comissões de Trabalhadores saídas directamente das Assembleias de fábrica e meros elementos constituintes destas.

São estas Assembleias de fábrica que importa desenvolver, radicalizando as lutas. A crítica fundamental que os trabalhadores fazem às eleições é igno-las na sua prática de luta declarada contra o capital. te facto, o proletariado só tem a perder as suas cadeias.



II. - CONTEXTO E SIGNIFICADO DAS ELEIÇÕES, HOJE, EM PORTUGAL



1) O 25 de Abril apareceu como sendo a libertação do povo português e é frequentemente considerado como uma revolução (não se sabendo bem se apenas das «flores» ou não) mesmo por aqueles que se dizem «comunistas».


Se considerarmos de perto as origens do 25 de Abril a partir dos conflitos no interior das Forças Armadas a braços com a guerra colonial e das lutas quer dos capitalistas entre si, quer entre estes e as massas trabalhadoras, facilmente verificamos que o 25 de Abril não passou de um mero golpe militar feito em última análise por necessidades do próprio capital.


Quer isto dizer que, para as massas trabalhadoras, a exploração continuou embora no governo surgissem caras e sorrisos novos. De facto, os trabalhadores têm hoje condições mais favoráveis na luta pela sua emancipação e tanto a LP como a ANP e a PIDE foram desmanteladas, mas tudo isto aconteceu porque o capital, para aumentar a exploração, necessitava de modificar a maneira como a fazia até então.


Já antes do 25 de Abril os trabalhadores desenvolviam poderosas lutas contra a exploração de que eram vítimas e será o desenvolvimento dessas lutas que lhes permitirá derrubar o poder do capital e apropriarem-se de todos os bens que hoje se encontram nas mãos quer dos patrões quer do Estado. Para isso os trabalhadores não poderão por um só momento deixar que, em nome da Democracia, do 25 de Abril e do Povo, os capitalistas ou os seus novos lacaios, lhes imponham o sossego e a passividade face à sua exploração, porque a Democracia, o Povo e o 25 de Abril, são palavras usadas pelos capitalistas e ao serviço exclusivo do capital. As massas trabalhadoras nupca poderão trocar a greve pelas negociações nos gabinetes sob pena de entrarem no jogo do capital, segundo as regras que este impõe.

Vejamos, pois, quem realizou o 25 de Abril e porquê.

É por demais sabido que o MFA teve as suas origens recentes no chamado «movimento dos capitães» que combinava a recusa do novo sistema de promoção de oficiais exigido pela guerra colonial com a consciência de uma vitória militar impossível nessa guerra e a consequente transformação das forças armadas em bode expiatório das dificuldades económicas e políticas do fascismo: o caso de Goa era um espantalho real e ameaçador para os oficiais preocupados com «Portugal e o Futuro».

Estas contradições e conflitos surgidos no interior do Exército não eram mais do que uma pequena parte integrante das contradições e conflitos que os capitalistas portugueses enfrentavam na sua ânsia de aniquilarem os seus concorrentes e de melhor explorar os trabalhadores de Portugal e das colónias.

Eram também reflexos da agudização da luta de classes, em Portugal e nas colónias, pois a concorrência inter-capitalista, para além da dinâmica própria que possui, era então, como agora, fundamentalmente determinada pelas movimentações operárias, camponesas e de certas lutas da pequena burguesia, que reagiam às consequências da crise económica internacional: inflacção (carestia de vida), desemprego, etc. Em última análise as dificuldades de os capitalistas aumentarem o volume e o ritmo de acumulação do capital resulta da luta ofensiva e defensiva que lhes é movida pelas massas trabalhadoras, em Portugal, nas colónias, no mundo inteiro (incluindo os países de capitalismo de Estado — Rússia, China) .

Vejamos resumidamente como é que o capitalismo em Portugal teve necessidade do fascismo para o seu desenvolvimento e como este se realizou.


DO 28 DE MAIO AO 25 DE ABRIL


2). — A. Nos últimos anos da 1.a República Democrática portuguesa o capitalismo debatia-se com os seguintes problemas :

— O capital agrário (latifundiários) por ser demasiado fraco economicamente para proceder a uma industrialização, concentração e modernização na agricultura, não podia deixar de ser conservador e desejoso de um Estado forte que lhe garantisse poder continuar a explorar os trabalhadores nos campos com elevadas margens de lucro, embora investisse pouco e se limitasse a viver dos rendimentos herdados.

Por sua vez os capitalistas industriais e comerciais tinham os seus monopólios fracamente desenvolvidos e tinham de enfrentar uma feroz concorrência dos pequenos e médios industriais e comerciantes com grandes apoios no Estado Democrático.

Nesta situação, dada a impossibilidade de um destes blocos conseguir dominar por si o poder de Estado, os capitalistas guerreavam-se entre si de modo a conseguirem uma maior parcela deste poder e assim pô-lo directamente ao serviço dos seus interesses exploradores. A solução para estas contradições dos capitalistas entre si e com dificuldades de aumentarem os seus lucros à custa dos trabalhadores, que então desenvolviam uma vigorosa luta contra a sua exploração (as grandes e numerosas lutas desta altura são bem a demonstração dessas dificuldades), tinha necessariamente de ser esta: um Estado forte, não subjugado a qualquer bloco, servindo-os a todos, velando pela ordem social, isto é, pela feroz repressão dos trabalhadores.

B. Foi assim que um golpe milita em 28 de Maio de 1926, trouxe o Estado Novo e que posteriormente foi chamado ao governo o doutor em finanças Salazar; enfim, trouxe o fascismo.

Uma das características do novo governo foi a de servir exemplarmente o capital, sabendo melhor do que os próprios capitalistas como o servir.

Qual a melhor política para o conseguir?

Destruir os partidos políticos, proteger os pequenos e médios industriais e comerciantes, aliar-se aos latifundiários e promover a industrialização controlada pelo Estado. Isto, juntamente com o desarmamento dos trabalhadores, a destruição das organizações políticas e sindicais, proporcionava aos capitalistas, que agora beneficiavam da ordem e da disciplina nas fábricas, maiores lucros que permitiam aumentar o seu capital.

Ao promover a industrialização o Estado ia aniquilando os pequenos industriais e comerciantes, aliando-se os médias com os grandes; por outro lado, o Estado incrementava a formação de sociedades por acções que reuniam pequenos capitais em grandes empresas, protegia os mercados coloniais e impunha, com uma repressão feroz, baixos salários.

C. Actuando deste modo, o Estado acabou por favorecer o desenvolvimento de poderosos bancos e grandes indústrias que progressivamente se iam assenhoreando da máquina do Estado e faziam sentir cada vez mais a sua influência. Assim, exigiam maior liberdade de iniciativa nas indústrias, o que ia contra a política de condicionamento industrial anteriormente imposta pelo Estado; exigiam que este desenvolvesse mais as infraestruturas (auto-estradas, transportes, etc.) necessárias ao desenvolvimento da industrialização assim como a modernização desta; exigiam um maior apoio às exportações para os outros países capitalistas e maiores créditos para investimentos. Pretendiam o alarga-gamento do mercado interno (aumento do poder de compra) através do aumento de salários acompanhado duma modernização técnica e dum aumento do ritmo de trabalho; a maior produtividade e intensidade do trabalho permitia pagar maiores salários aos trabalhadores, aumentando a sua exploração. Exigiam também a modernização da agricultura de modo a aumentar as trocas entre indústria e agricultura, a industrialização e comercialização dos produtos agrícolas.

Todas estas necessidades do capital financeiro (capital bancário + capital industrial) chocavam com os interesses quer dos latifundiários que pretendiam continuar a sua exploração «caseira», quer das pequenas e médias empresas que, por falta de capital, não podiam aguentar a concorrência que lhes era feita. Deste modo, a concorrência e as contradições entre os capitalistas agudizavam-se.

D. O início das guerras coloniais em 1961 obrigou o capitalismo português a uma maior aproximação com o capitalismo estrangeiro dado que, para manter as colónias, os capitalistas portugueses tinham de as partilhar com o imperialismo mundial. Procedeu-se então a um desenvolvimento industrial acelerado de Angola e Moçambique (principalmente nas indústrias extractivas, já que eram estas fundamentalmente que interessavam ao imperialismo) com grande penetração de capitais estrangeiros. Isto levava a que o governo português estivesse cada vez mais condicionado pelos interesses dos grandes grupos económicos mundiais.
Se por um lado, o capital financeiro realizou a desejada aproximação com o capitalismo internancional viu-se, por outro, também submetido a este.

Com o prolongamento das guerras coloniais, as despesas militares e administrativas que estas exigiam levavam a que a política dos Estados fascistas não pudesse responder aos interesses da facção capitalista dominante, o capital financeiro, e oscilasse entre as necessidals deste, os interesses do imperialismo internacional (nomeadamente a Alemanha e EUA) e os dos pequenos, médios industriais e latifundiários. Estes estavam interessados na manutenção a todo o custo no tipo de exploração colonial até então levado a cabo pelo Estado fascista, pois sobretudo a pequena e média indústria necessitavam imperiosamente das matérias primas baratas provenientes das colónias, assim como dos seus mercados.


E. Em 1968, Marcelo surgiu como o homem que poderia resolver estes problemas que tornavam cada vez mais difícil a exploração desenfreada dos trabalhadores de Portugal e das colónias.

As mudanças a nível de Estado são bem conhecidas: da Pide à DGS, da UN à ANP, a entrada dos liberais para a Assembleia Nacional e dos tecnocratas (Rogério Martins, etc.) para o governo. Foi a tão proclamada liberalização.

Que significava esta? Apenas uma maior influência que os capitalistas dos bancos e das grandes indústrias tinham conseguido no aparelho de Estado. Também as reformas que então apareceram são expressão e resultado desta maior influência sobre o Estado, que agora as fazia porque delas necessitava o capital financeiro.

Mas as «conversas em família» de sorridentes e calorosas em breve se transformaram em conversas ameaçadoramente preocupadas com a sorte do capital.

E isto porquê?

As lutas dos trabalhadores contra o aumento do custo de vida (p. ex. aumento dos impostos de consumo), contra os horários de trabalho, contra a intensificação da sua exploração, aumentavam; nas colónias a impossibilidade duma vitória era de facto uma pesada derrota; na Universidade e outras instituições, a crise e a «contestação» progrediam. O capital financeiro via Marcelo afastar-se cada vez mais de si. Este estava condenado a prosseguir inevitavelmente a guerra. A tão desejada aproximação com o capital europeu (Mercado Comum) estava cada vez mais dificultada, e a modernização da indústria ia a passo de tartaruga. O principal problema permanecia: como acabar com a guerra sem perder as colónias? A manutenção destas era ainda, como já se disse, mais vital para os pequenos e médios industriais e comerciantes. Neste ponto fulcral os interesses dos concorrentes encontravam-se, embora propondo soluções diferentes.

3). A. Entretanto na Guiné, os grandes capitalistas encontravam um bom servidor: o general Spínola.

Este tentou efectivamente acabar com a guerra sem prejudicar os interesses do capital nessa colónia. Beneficiava de condições particulares favoráveis a essa política que em Angola e Moçambique era impraticável. O capitalismo estava pouco desenvolvido na Guiné. Apoiava-se principalmente na exploração agrícola e nas trocas comerciais.

Isto permitia a Spínola desenvolver uma política de aliança com as camadas sociais mais favorecidas pelo tipo de implantação colonial: funcionalismo público, comerciantes, pequena burguesia urbana em geral, e chefes tribais.


A exploração colonial directa seria substituída por uma dominação indirecta, apoiada e em aliança com estas forças sociais. Era a política de «africanização»: o slogan «Por uma Guiné melhor» não era mais do que o tristemente célebre federalismo neocolonial. A democracia instaurada com os «Congressos dos Povos» captaria também certos sectores do PAIGC, que entretanto estavam já em negociações com as forças portuguesas e com Spínola (que o assassínio de Amilcar Cabral trouxe à luz do dia) .

Mas mesmo na Guiné esta política revelou-se impossível: a luta do PAIGC progredia de tal modo que a CUF viu-se obrigada a «dar» ao povo da Guiné aquilo que era seu. Isto mostra que o capital financeiro mesmo na Guiné e com Spínola encontrava dificuldades em continuar a manter o tipo de exploração colonial que até então vigorava.

B. Estas contradições e dificuldades também se manifestavam no interior das Forças Armadas que naquelas paragens «defendiam a Pátria». O número de spinolistas nas F. A. aumentou rapidamente; os boatos de golpes de Estado e contra-golpes começaram a ser frequentes até que o passeio das Caldas acabou no 25 de Abril.


O 25 DE ABRIL E OS PARTIDOS DEMOCRÃTICOS 


4). A. Como surgiu ele?

Já vimos que a política marcelista estava irremediavelmente condenada a manter as guerras coloniais. A submissão ao imperialismo ocidental, americano em particular, era cada vez maior. Da continuação das guerras e das consequências político-económicas destas resultava uma maior influência no poder de Estado dos sectores capitalistas mais conservadores, isto é, os que mais beneficiavam da exploração tradicional quer em Portugal quer nas colónias.


Tudo isto se desenvolvia contra os interesses particulares do sector financeiro cujas necessidades impunham, p. ex., uma abertura e aliança não tanto com o capital americano mas com o capital europeu e com o capitalismo de Estado de leste, assim como o tal desenvolvimento e modernização da indústria.

Combinadas estas contradições quer entre os capitalistas — reflectidas no seio do aparelho de Estado e das F. A. —, quer entre estes e as massas trabalhadoras (não esquecendo o descontentamento generalizado também da pequena burguesia), tornava-se urgente para o grande capital a substituição dos seus representantes no Estado, assim como a modificação e «actualização» das formas deste.


B. O que se tornava urgente para o grande capital não o era menos para as F. A. a braç com os conflitos também já referidos, resultantes para estas, como para aquele, sobretudo da manutenção e prolongamento da guerra colonial. Derrubando o fascismo em 25 de Abril, as F. A. responderam objectivamente a essas necessidades.


Como é evidente, o 25 de Abril não «foi feito» para libertar as massas trabalhadoras da exploração capitalista quer em Portugal quer nas colónias. Pelo contrário, na sua primeira fase, que vai em traços largos até à queda do 1.° governo provisório e ao 28 de Setembro, ele servia directamente o grande capital e posteriormente continuou a servi-lo, embora este encontrasse agora novos servidores, essencialmente representantes e defensores do capital de Estado.

5). O processo é bastante complexa e para o compreendermos teremos de o considerar detalhadamente.


O 25 de Abril despoletou uma movimentação com dinâmicas paralelas, convergentes e antagónicas de todas as classes e sectores sociais. Esta apreciação genérica permite para já compreender a fluidez da situação e a impossibilidade de prever exactamente o seu desenrolar; Permite obter um quadro que embora demasiado geral, é globalizante.


O fascismo cantonava a luta de classes a um desenvolvimento «subterrâneo».


Com o 25 de Abril a luta de classes desenvolve-se abertamente e em ritmo acelerado, aparecendo claramente os interesses e a táctica de todas as classes sociais. Estas vão-se aproximando cada vez mais do lugar que realmente ocupam no combate fundamental da luta de classes.


Apareceram à luz do dia todos os partidos e organizações políticas que até aí viviam na ilegalidade. Outras se formaram. Se uns surgiam directamente como representantes do grande capital (Partido do Progresso, Liberal, CDS, PPD, etc.) a grande maioria apresentava-se como representante e defensor do proletariado. Tudo isto enquanto as massas trabalhadoras desenvolviam lutas sem o aval desses «representantes» das organizações políticas e sindicais.


6). No 1.° governo provisório o peso do grande capital fazia sentir-se nas pessoas de Spínola, Palma Carlos, Vieira de Almeida e seus sequazes.


Spínola pretendia a todo o custo impor a sua tese fede-ralista para a «descolonização» enquanto defrontava a oposição dos partidos de esquerda representados no Governo e de alguns representantes das F. A. que entretanto evoluíram para as posições destes partidos.


A. O PS, oscilando entre a social-democracia e o «socialismo», propunha este em «liberdade». Embora nacionalizando algumas empresas e desenvolvendo a «assistência social», deixaria lugar e protegeria a iniciativa privada, por exemplo, dos pequenos e médios industriais e comerciantes.


Os técnicos, os quadros administrativos e científicos que hoje servem os capitalistas que apenas são proprietáris e intervêm de um modo indirecto na produção, passariam a gerir «democraticamente» o capital então nacionalizado e concentrado nas mãos do Estado.


Ligado internacionalmente às sociais-democracias do capital europeu, o PS viu-se forçado em Portugal a levar a sua social-democracia até ao «socialismo», à fraseologia radical e à «benevolente compreensão» perante a luta dos trabalhadores.


Efectivamente, face à radicalização das lutas proletárias não havia outra táctica para o PS, já que este tentava alargar o número dos seus simpatizantes, controlar essas lutas e aumentar o seu capital político.


Note-se aqui que a via pacífica para o Capitalismo de Estado «democrático» é favorecida pela elevada concentração de capital nas mãos do Estado, herdada do fascismo. Esta herança beneficia de um modo geral todos os candidatos a gestores colectivos do capital, a novos patrões.


B. Um outro interesibado em desenvolver esta herança é o PC. Mas enquanto Soares ganha prestígio nas suas andanças de caixeiro-viajante do capital e afirma não alinhar na «caça às bruxas esquerdistas», Cunhal, o PC e todas as organizações controladas por este (MJT, MDP, UEC, etc.), na sabotagem e repressão às greves e lutas operárias, têm revelado sem ambiguidades o modelo de capitalismo de Estado totalitário que se propõem construir. Simultaneamente delegação do imperialismo soviético em Portugal e ansiando por um capitalismo de Estado português, o PC pretende ser curandeiro da crise do capital em Portugal propondo o modelo russo para a sua reanimação.


C. O PPD, instrumento político do sector mais tecno-crático do capital financeiro, pretende a modernização acelerada da indústria e do aparelho de Estado, dando no entanto uma importância decisiva à iniciativa privada. As nacionalizações por ele defendidas são o desenvolvimento «natural» e imediato da concentração e centralização do capital em Portugal.


D. Estas quatro forças embora convirjam no objectivo principal, reconstrução do capitalismo em Portugal, divergem no entanto, como é óbvio, nos meios, formas e conteúdos daquele.


A descolonização e os conflitos no seio do MFA, foram as questões principais que levaram à queda do 1.° governo provisório. Spínola, com o apoio do PPD e do imperialismo americano, insistia no seu modelo federativo, enquanto que o PS e o PC, de acordo com os seus objectivos e alianças internacionais, concediam um apoio total aos movimentos de libertação considerando-os capazes de, nas colónias, construírem também o capitalismo de Estado. O que no 1.° governo provisório era a luta interpartidos, a nível internacional era a luta interimperialismos (Americano, europeu, URSS) . Considere-se aqui também que Spínola, perante o avanço das lutas populares, blasfemava contra o caos e a anarquia, sem qualquer eficácia.


No MFA também se manifestavam estas lutas, já que os spinolistas aparentemente maioritários no início, tentavam consolidar a sua posição e a de Spínola, ao mesmo tempo que os partidários de uma «descolonização total» pretendiam levá-la até ao fim, considerando que as nações irmãs de capitalismo «avançado» e de Estado poderiam reconstruir-se melhor, explorando racionalizadamente, à sueca, à russa, ou até mesmo à Guiné Conakry e Tanzânia, as massas trabalhadoras.


7. Estes conflitos, desenrolando-se numa situação de numerosas lutas proletárias e de grandes manifestações pela «libertação nacional» das futuras classes exploradoras nas colónias (Movimentos de Libertação Nacional) , culminaram na queda do governo provisório e no reforço das posições «progressistas» dentro do MFA e do aparelho de Estado.


Spínola permaneceu, e, quase solitário dentro do governo, começou os seus apelos à «maioria silenciosa», manobrando as forças sociais mais reaccionárias, não encobrindo a sua simpatia pelo famigerado Movimento de Moçambique Livre.


Se os conflitos a nível político surgiam como verificando-se entre o sistema de partido único e o pluralismo partidário («não às ditaduras»!) revelaram-se realmente a nível económico aquilo que eram: capitalismo de Estado ou capitalismo privado (1) .


«Paradoxalmente» a luta pelo capitalismo de Estado era conduzida pela Intersindical, Ministério do Trabalho, PC e Apêndices, em nome dos trabalhadores, do socialismo e da pátria contra a «sabotagem económica». Esta era então praticada pelos capitalistas em geral e pelo capital financeiro em particular, sobretudo desde a queda do primeiro governo provisório. Com efeito, a partir de então aquele iniciou uma ofensiva declarada contra as «forças de esquerda». O modo como se desenrolou o processo de descolonização, as lutas dos trabalhadores (e a ineficácia das organizações sindicais para as conterem) , assim como o peso crescente das forças de leste e do capitalismo de Estado colocaram o capital financeiro perante grandes dificuldades no controlo político da situação.


8. Assim rebenta o 28 de Setembro.


Spínola, os partidos políticos, os capitalistas em geral e o capital financeiro, perdendo a jogada da manifestação da maioria silenciosa e tudo o que a ela estava associado, foram forçados a recuar, embora o PPD conti uasse no Governo. Há a salientar, no entanto, que o dDS (que reagrupa de um modo geral os partidos fascistas desaparecidos e sectores do capital financeiro) reforçou as suas posições e redobrou a sua actividade.


O PS, o PC e os sectores de «esquerda» do MFA, isto é, que perfilham as posições políticas desses partidos, sairam desta «ofensiva» da reacção bastante reforçados. Acentuou-se o tão proclamado «desfasamento» entre o poder económico e o poder político. Este não é mais do que o controlo do aparelho de Estado, das F.A. e do processo de descolonização, pelas «forças de esquerda» (PS, PC, MFA), enquanto que o poder económico ainda está essencialmente de facto nas mãos do capital financeiro (Champallimaud, CUF, etc.). Esta situação pode ser resolvida de um dos seguintes modos:


— A manutenção e reforço do poder político por parte do PC, PS e MFA, implica necessariamente um processo profundo de nacionalizações e expropriação dos capitalistas privados. Da mesma maneira, implica também uma intensificação do grau de exploração dos trabalhadores e a militarização a todos os níveis da sociedade. De facto, o capitalismo prossegue apesar de os patrões serem substituídos pelo patrão único — Estado.


— A ofensiva militar e económica dos capitalistas tradicionais, agora na companhia do capital financeiro, em aliança com os EUA e o capital ocidental de um modo geral. Essa ofensiva culminaria num golpe de Estado cujos resultados mais imediatos seria a feroz repressão de todas as «forças de esquerda» e extrema-esquerda, e, em especial, das massas trabalhadoras.


A iniciativa privada prevaleceria, mas ainda sob controlo estatal. Com efeito, dada a especifidade do capitalismo português, condicionado actualmente pela crise económica mundial, não é possível em Portugal qualquer tipo de «democracia» económica ou política, e, muito menos, «da pura» (sempre mistificação).


A «novidade» desta solução seria a participação do PPD e de sectores mais tecnocráticos do capital financeiro (Pinto Balsemão, Sá Carneiro) neste golpe de Estado, lado a lado com os sectores mais conservadores do capital, derrubados com o 25 de Abril e desde então «conspiradores golpistas», sempre em acção clara ou subterrânea.


Esta saída é sobretudo determinada pelo avanço das massas trabalhadoras na sua luta auto-emancipadora. É subamdeterminada pelos conflitos internacionais que se reflectem em Portugal, por exemplo, entre o CDS e o PC, a nível de partidos políticos e entre a embaixada soviética e americana, KGB e CIA, ao nível «cultural» e policial.


Quando a luta de classes se radicaliza, as contradições inter-capitalistas tornam-se secundárias, os exércitos e campo de batalha bem definidos: trabalho assalariado e capital (privado ou de Estado) , comunismo e capitalismo. É apenas quando os campos estão assim claramente definidos que as massas trabalhadoras podem dar o salto revo-lucioonário para o comunismo, impondo-o nos seus locais de exploração, e destruindo as instituições que a defendem, gerem e planificam.


— Esta última saída é uma das possíveis. Será considerada detalhadamente mais adiante.

Como já se frizou, estes conflitos e estas saídas verificam-se numa conjuntura de crise económica mundial, em virtude da qual as classes exploradoras têm necessidade de reforçar o seu poder e a repressão sobre o proletariado; a concorrência inter-imperialista agudiza-se e pode transformar-se em conflito militar generalizado; a luta pe o comunismo aprofunda-se e internacionaliza-se, conform> vai aumentando o desemprego, a carestia de vida, em suma, conforme as condicões de vida das massas trabalhadoras se vão tornando insuportáveis no capitalismo.

9. É neste contexto nacional e internacional que surgem as eleições.

Como vemos, elas em nada alteram as direcções e saídas fundamentais da crise pois estas estão já determinadas antes delas, apesar delas e por causas emergentes das próprias estruturas capitalistas. O voto, as eleições, as assembleias dentro de Estado capitalista em nada modificam essas saídas.


As eleições constituem antes e essencialmente um campo de manobra para os partidos que nelas participam e que representam todas as saídas possíveis, menos a única que interessa historicamente às massas trabalhadoras: a sua emancipação. A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores. Se estes a não realizarem, ninguém a realizará, pois ela não se delega em ninguém e muito menos no Estado capitalista que a impede violentamente e nos partidos que sempre utilizaram o proletariado para os seus fins de partidos defensores da exploração actual ainda que sob outra forma.


Para esses partidos as eleições surgem exactamente como um meio de aumentarem a sua força no aparelho de Estado de modo a imporem e a legitimarem com <os «votos populares» as soluções que correspondem aos objectivos por eles prosseguidos. As influências que todos os partidos tentam conseguir no seio do MFA visam obter o apoio deste para, independentemente das eleições, levarem a cabo os seus objectivos. A aliança entre o PC e as FA p. ex. não tem apenas como objectivo defender as «conquistas democráticas» do 25 de Abril; antes se insere num processo de lutas partidárias pela conquista do aparelho de Estado e poderá eventualmente permitir ao PC realizar um «golpão» de Estado de «esquerda» (que será apresentado como a Revolução Socialista) ; esse golpão terá um desenvolvimento muito mais radical, no sentido da nacionalização e estatização da economia, do que as hesitantes acções contra os «sabotadores», posteriores ao 28 de Setembro. Isto não é apanágio só do PC mas faz parte da táctica dos outros partidos, seja o PS, o PPD, etc.


Pensar que o «pacifismo» do PS exclui a hipótese de este, aliando-se às FA, desencadear um golpe de Estado, é desprezar o papel que as facções mais radicais no interior desse partido podem desempenhar; isto, embora o capitalismo de Estado «em liberdade» que pretendem construir se inscreva num quadro de alianças internacionais diferentes das do PC; as medidas adoptar seriam simplesmente menos totalitárias e menos. radicais. Há a considerar no entanto que o PS poae fier tido por mais «pacífico» do que o PC, advindo-lhe esse pacifismo da não proposição de medidas tão radicais como este, pois, dados os seus compromissos internacionais e o «meio termo» entre estatiza-ção e iniciativa privada aquele encontra dificuldades na possível realização de um golpe de Estado. Como já foi dito, o mesmo não acontece com o PC, que, praticamente desde o 25 de Abril, tem trabalhado nesse sentido. Para o realizar bastar-lhe-á ter o apoio do MFA, da União Soviética, e conseguir manobrar as massas trabalhadoras na luta contra o capital privado (saneamentos, inquéritos financeiros, etc.) (2) .
Por aqui é fácil compreender os tão falados conflitos entre o PS e o PC/MDP, conflitos esses reciprocamente inibidores no sentido de impedirem o desenvolvimento radical (golpe de Estado) desejado por ambos (3 ) .
Analisado o verdadeiro significado das eleições para os partidos de direita e de «esquerda» dentro e fora do governo, e demonstrado que está o monstruoso e terrível engano que para o proletariado significaria alinhar nas eleições, votar ou apoiar este ou aquele partido, assim como a feroz repressão e exploração que apenas poderá esperar de todos eles, passemos agora a analisar a famosa extrema-esquerda (marxista-leninista)



A suivre....

(*) Texto de intervenção militante, é fundamentalmente estruturado a partir da compreensão empírica da realidade nacional e internacional com o fim de fundamentar teoricamente uma posição prática comunista determinada pela própria prática anti-capitalista.

 (1) E também este o significado real da luta entre os que propõem a unicidade e o pluralismo sindical.

(2)  (*) Na actual maré de congressos também o Movimento de Esquerda Socialista (MES) realizou o seu Congresso. Pelas conclusões divulgadas fica demonstrado à evidência como o MES, no essencial, prossegue a mesma política que o PC. Só que, por u lado não possui os limites das alianças internacionais deste e, por nutro. aproveita e incentiva a «auto-organização» das massas trabalhadoras no sentido de pressionar os técnicos e políticos no aparelho de Estado a reforçarem o poder deste contra os capitalistas privados. As nacionalizações são tão radicais quanto é necessária a antecipação urgente à derrocada do capital. De facto, aos tecno-burocratas interessa-lhes derrubar os capitalistas privados mas manter as estruturas fundamentais do capital. ã isto que explica que o MES nunca tenha «sonhado» com a destruição dos exércitos (e a constituição de milícias proletárias) e pretenda que aquele, na sua expressão mais radical dentro do MFA seja o motor e o centro da luta anti-capita-lista. É por isso também que a destruição do Estado não surge como um objectivo antes pretendendo que o «poder político» seja instrumento de luta contra os capitalistas privados.
aliás, no capitalismo de Estado «revolucionário», por oposição ao «totalitário» do PC e ao «em liberdade» do PS, que os «sindicatos revolucionários» apregoados por um seu «dirigente sindical de base» terá a sua expressão plena.
O MES reconhece também a necessidade do «partido revolucionário da classe operária como condição essencial para que esta atinja a conquista do poder e que nenhum partido ainda preenche» (A Capital, 23-12-1974).
E claro que o MES não pretende ser esse partido! E quanto à «conquista do poder» limitar-se-á, num próximo 28 de Setembro, a fornecer bons técnicos ao Estado na luta deste contra o capital financeiro e pelo «anti-monopolismo progressista». Entretanto não perde tempo: por solidariedade anti-colonialista adquire já experiência na construção nacional do capitalismo de Estado em Moçambique; e    como exercício anti-sectário convida o PC para o seu congresso e não fecha as portas à extrema-esquerda.

(3) Estas hipóteses abstractas nunca são levadas à prática nos termos «puros» em que são concebidas. Há sempre múltiplas variantes possíveis como seja, p. ex. a eventual adesão do PS — das suas forças de «direita» — a um golpe de Estado em que também participe o    PPD. Uma outra hipótese é a adesão dos sectores de «esquerda» do PS a um golpe de força «progressista» (que poderia incluir o MES).
Contudo, é necessário não esquecer que a saída capitalista da crise em Portugal será condicionada por três factores preponderantes: 1) intervenção inevitável das FA, de novo salvadoras da «pátria» abalada pela «democracia», que terá necessariamente como resultado um Estado totalitário quer de direita (neo-fascistas-spinolistas) quer de esquerda («MFA progressista») ; 2) tal como os militares derrubaram o fascismo por este já não servir o capital, também agora acabarão com a «democracia» — campo de luta de classes aberta e    ameaçadora— que também já não serve o capital; 3) todas estas saídas poderão ser realizadas pelas FA, independentemente e mesmo
contra os partidos políticos, pois a forte estatização dos sectores fundamentais da economia portuguesa (herdada do fascismo) torna esse totalitarismo necessário ao desenvolvimento do capital. Para o proletariado pouco importa que este totalitarismo seja de direita (neo-fascismo) ou de esquerda (capitalismo de Estado), já que este último é apenas o desenvolvimento da estatização da economia já realizada no fascismo.
No entanto, não interessa aqui prever exactamente o desenrolar da situação, mas sim, através da análise das características gerais das forças em presença demonstrar como as eleições em nada se inscrevem na luta de auto-emancipação proletária. Aliás, como já foi demonstrado, elas nunca servirão o proletariado, independentemente das forças que nela participem.

Sem comentários:

Enviar um comentário